terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Álvaro Martins. Entre os Maiores Poetas do Ceará


O Maior Poeta Morto do Ceará - Jornal A Rua. Fortaleza, 13 de outubro de 1933.  Por Murilo Mota


 
Álvaro Dias Martins
Ninguém, até hoje, cuidou de saber quem é o maior poeta morto do Ceará. Diz-se, vagamente, que fomos possuidores de celsos dedilhadores  da musa, de altos espíritos de musagetes fidalgos, mas pessoa alguma se deu ao piedoso trabalho de pesquisar pelo estudo ou averiguar pelo consenso da intelectualidade indígena, qual seja em verdade o maior poeta cearense dentre aqueles que se enfileiraram ao rol dos mortos.




 A questão não é, como possa parecer à primeira vista, das que se resolvem assim de um modo ao mesmo tempo fácil e seguro, como certos teoremas algébricos e geométricos, que se solucionam sem esforço algum, com a ajuda dos logaritimos. Requer meditação e critério, sem os quais nada de definitivo, de certo, de genuinamente verídico se alcançará.


 Quero crer que é fora de toda dúvida o fato de que para a escolha do “primus inter pares” dos poetas cearenses mortos, três nomes devem surgir à vanguarda à frente dos demais: Juvenal Galeno, Álvaro Martins e José Albano. Destes, deve ser escolhido e aclamado o príncipe dos nossos citaredos defuntos. Certo de que outros, de igual modo admiráveis e brilhantes, existiram, nenhum deles atingiu o esplendor e mesmo o glorioso renome alcançado por esta trindade de nomes tutelares de nossa esquecida e malsinada poética provinciana.


 Para a escolha de seu bonzo aureolado, há a acentuar a imperiosa necessidade de se adotar um critério por meio do qual sejam estes três poetas discutidos  e estudados no ramo de poesia que exploraram e em que fulgiram. Não seria justo, de maneira nenhuma, que, por uma simples tendência de gostos, fossemos levados a aclamar este ou aquele poeta, que da esgalhada árvore do verso tivesse explorado um dos ramos que mais nos agradasse e seduzisse.


 
Fac simile do jornal A Rua, de 1933

Dizemos isso atentando justamente na evidente diversidade entre os três poetas  supra indicados. Juvenal Galeno foi, por exemplo, um valente, um bravo corifeu do abrasileiramento  das nossas letras. Realizou ate um trabalho mais útil que o indianista de Gonçalves Dias. Fundo amor regionalista o fazia torcer o rosto ao ranço do classicismo bolorento e nada lhe soava mais melodiosamente aos ouvidos rústicos que o ritmo dondilha popular ou de uma quadrilha aligeirada transformada nas mãos encantadoras das melopeas pelo encanto emocional de um menestrel matuto.


 Já Álvaro Martins não avançava tanto no seu amor, por assim dizer, folclórico. Amava a sua gente e a sua terra e delas foi um cantor enternecido e singelo, cujo brilho sentimental se punha em flagrante contraste com a simplicidade, a humildade gloriosa de suas rimas. Há produções suas, de gênero regionalista, destinadas a ter a mesma vida da poesia cearense, Talqualmente Juvenal Galeno, no seu gênero popular, Álvaro Martins, o dedicado e robusto criador de Xiquita, não tem rival no seu encanto e lirismo de rapsodo das coisas em cujo acalento nasceu, viveu e morreu.


 Com José Albano, verifica-se um fenômeno diametralmente oposto. Avesso à toda a simplicidade rústica, à toda a pobreza discreta de rima e amante da variedade policrômica do vocabulário acadêmico, voltou-se inteiramente aos processos clássicos, tentando ressurgir, em plena alvorada do século vinte, o quinhentismo rígido de Camões e Gil Vicente. Foi um purista inigualável , sentindo=se nos seus versos, que são reveladores de emoção artística  de uma grande, de uma alta, de uma iluminada alma de poeta, em que a preocupação de forma, do aticismo linguístico e verbal denunciava a elegância, a fidalguia heráldica que lhe eram características.


 Foram, assim, grandes os três, em gêneros e de formas diferentes. Há, para a escolha do “magnus parens” , a dificuldade embaraçosa do “embarras du choix” , Bem difícil, portanto, foi a tarefa que vem de tomar a ombros o Centro Estudantil Cearense,procurando aclamar, por meio de seus habituais torneios intercolegiais de cultura, o maior poeta morto do Ceará. Bem difícil e intrincada principalmente quando se atenta na veracidade  do venerabilíssimo chavão que reza, acertadamente, que “de gustibus non”.


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Fortaleza 1957. A Capital dos Clubes Elegantes

Texto original. Autoria jornalística. Jornal Tribuna do Ceará.

14 de dezembro de 1957.

Fortaleza, a Capital dos Clubes Elegantes

 
Náutico A. C. ainda em obras. (1957)
Nesta edição especial, não poderíamos deixar de falar a respeito da sociedade de Fortaleza que, em verdade, sempre teve vida intensa e marcante no desenvolvimento da cidade. Faça,os, de início,  um pequeno retrospecto de como o fortalezense se divertia em épocas passadas, onde brilhavam as tradicionais famílias, Ferreira, Fiúza, Gentil, Albano, Salgado, Cruz e outras que nos fogem à memória. Naqueles tempos, dois clubes reuniam o que a cidade tinha mais seleto: Iracema e Diários, que, com suas notáveis reuniões, davam um esplendor digno de nota na vida da “Loira Desposada do Sol”. Afora os clubes, o mundo social contava com o Theatro José de Alencar, por onde passaram grandes artistas nacionais e internacionais, bem como as melhores companhias teatrais da época, e cujas exibições te hoje vivem  na memória daqueles que assistiram a esses espetáculos.
 A sociedade contava, ainda, com o Cine Majestic, que era ponto de reunião dos “grã-finos”, mas com o advento do cinema sonoro passou a ser relegado a segundo plano, posto que a inauguração do Cine Moderno, luxuoso para a época, trouxe o filme falado, com as sessões às quartas e sábados, sendo o ponto alto para a sociedade  desses tempos idos. Havia também o Rotisserie, bar e restaurante de primeira ordem, local obrigatoriamente frequentado pela “alta”, e, logo mais, a Nice, confeitaria e casa de chá de luxo que não se deve omitir.


O Presente


 A Fortaleza elegante de hoje sinceramente não tem um lugar (onde se reúna sorveteria, casa de chá, bar ou restaurante) considerado de primeira ordem, e sendo assim o alto mundo social fortalezense está se concentrando nos clubes elegantes, que oferecem ótimos programas aos seus associados, com seus restaurantes e bares de primeira. Falar de altos círculos sociais é, portanto, falar dos nossos clubes, aliás em número elevado, e famosos em todo o Brasil pelo bom gosto de suas construções e pela vantagem de se situarem, em sua maioria, na orla marítima . Dessa maneira, resolvemos fazer um relato sobre os nossos principais clubes, mostrando o que os mesmos oferecem à sociedade.


Náutico Atlético Cearense

 


Náutico Atlético Cearense. Obras avançadas.

Além da sua sede estar aberta para o banho de mar e práticas esportivas, dispõe aos associados, no meio da semana, de uma sessão cinematográfica com um filme de longa metragem, seguida de uma tertúlia dançante ao som do seu aparelho de alta fidelidade. Constata-se, portanto, no colosso do alviverde, às quartas feiras, a presença da sociedade de nossa terra, principalmente da nova geração. Oferece, nas manhãs de domingo, sessões esportivas muito concorridas, sendo grande o movimento nas quadras de voleibol, basquetebol, tênis e completo “play-ground” para crianças, e para estas uma sessão de cinema a partir das 18 horas, o que a tornou a coqueluche do momento. Quanto à programação, está um pouco fraca. Segundo a diretoria, porém, justifica-se o aguardo do término da construção do conjunto de piscinas, das quais a maior, medindo 50 x 25 metros, sendo conveniente frisar que o conjunto será o maior da América do Sul. Ao lado das piscinas está sendo construído um grande “ring” de patinação, a ser entregue ao término das outras, em junho ou julho do próximo ano. Destaca-se, ainda, o apreço às grandes festas anuais de 28 de junho (aniversário) e 31 de dezembro, grande baile de fim de ano, com desfiles de “debutantes”, e diversas festas em benefício  das instituições de caridade promovidas por senhoras da sociedade,  com total apoio do clube


Iate Clube


 Com sede na Av. João Pessoa, o Ideal Clube inaugurou a sua filial na praia, na Av. Monsenhor Tabosa, e em seguida como a nova sede, em 1939. Com uma arquitetura moderna, chama a atenção pela beleza. Um conjunto dos mais belos, agradando em cheio o visitante. É casa de visitas da nossa cidade, considerado o clube mais seleto de Fortaleza. Construído ao estilo colonial, com muito esmero, conserva toas as belezas que o local oferece, inclusive os coqueiros e a paisagem que se destaca naquele recanto. Oferece uma vasta programação ao alto mundo social de Fortaleza, quer em divertimentos, quer no setor cultural. Vejamos:Segundas-Feiras:  Das 9 às 10 horas ginástica para senhoras, ministradas por um professor competente. Das 20 às 21 horas aulas de francês. Terças-Feiras: Às 20 horas sessão cinematográfica, com um longa metragem (35 mm). Quartas-Feiras: Das 9 às 10 horas ginástica para senhoras, e à noite reunião entre sócios para bate papo. Quintas-feiras: 20 horas cinema com longa metragem. Sextas-Feiras: Das 9 às 10 horas ginástica para senhoras. Aulas de francês e inglês das 20 às 21 horas, e de 21 às 22 horas, respectivamente. E finais de semana lazer aos associados, provas de natação noturnas, recitais, concertos, etc.


 Clube Líbano Brasileiro


 Em fase de acabamento, a sua majestosa sede já é dotada do que mais moderno existe, inclusive de máquinas cinematográficas para exibição de filmes pelo processo  CINEMASCOPE, 35 mm e 16 mm, e no momento com exibições às segundas-feiras e tertúlias dançantes aos sábados. A sua diretoria estuda grandes promoções para divertimentos para quando da inauguração do prédio, em breve. Podemos adiantar que terá um luxuoso restaurante, onde serão servidos pratos sírios e brasileiros, inédito em Fortaleza. Foram iniciadas as contruções de quadras de tênis, voleibol, basquetebol, e, logo após, a moderna  piscina de 25 por 16 metros. O s diretores libaneses querem que os sócio tenham todo o conforto e uma programação semanal das melhores, para isso já tendo criado o quadro de sócios contribuintes, que será selecionadíssimo. Pelo exposto, o Líbano será sem favor um dos melhores do Brasil.


 Clube dos Diários


 Por enquanto está oferecendo aos seus sócios uma tertúlia semanal aos sábados, juntamente com uma sessão cinematográfica. A piscina já está praticamente terminada e a sua inauguração se dará no mês de janeiro, vindo um ballet aquático, além dos desconhecidos malabaristas loucos especialmente do Rio de Janeiro para a festa.



No Centro da cidade o Palacete Guarany: Clube dos Diários da Belle Époque (1913)

 

Iate Clube


 É o caçula dos nossos clubes, funcionando provisoriamente, sendo a sua praia (no Mucuripe) a mais frequentada pela nossa sociedade. Em todos os domingos a diretoria iatista oferece aos associados uma grande garagem que já não comporta o abrigo de todas as embarcações. Sob direção de Jório Juaçaba a promessa é que a sua inauguração ocorra em breve, e com uma grande garagem para as embarcações. Embora um dos mais fechados de Fortaleza, será, pelos seus projetos em andamento, um dos nossos grandes clubes.


 Maguary Esporte Clube


 
Histórico Maguari dos Príncipes
Em matéria de festas é o que mais oferece aos nossos círculos sociais. Sua programação fixa semanal está um tanto quanta reduzida, limitando-se a sessão cinematográfica  e uma tertúlia dançante aos domingos. Contudo, é um dos bons clubes da cidade, muito frequentado e de um ambiente agradável, sendo o seu carnaval o melhor de Fortaleza, principalmente na terça-feira, quando toda a sociedade da capital se reúne a fim de se despedir do Rei Momo, despedida esta que se dá às 7 horas da manhã de quarta-feira de cinzas, sendo um espetáculo inolvidável.


 Fortaleza social conta ainda com outros clubes de primeira, como sejam:  CLUBE IRACEMA ( em construção), em cuja frente se encontra o confrade Claudio Matos, oferece às sextas-feiras uma das mais agradáveis tertúlias. Sua sede já é uma realidade patente, reunindo em seu quadro seletivo um seleto grupo de sócios. Será, sem dúvidas, um dos melhores da nossa terra.


 O CENTRO MASSAPEENSE, um dos nossos bons clubes, agora está sob nova orientação, à frente o Sr. Wilson Rodrigues Dias.


 O COMERCIAL CLUBE, sob a esclarecida direção do prof. José Claudio de Oliveira.


 O CIRCULO MILITAR DE FORTALEZA, que reúne a oficialidade das nossas classes armadas, oferece bons programas à nossa sociedade, incluindo festas, exibições cinematográficas e tertúlias.

                                                              Créditos, texto e fotos do jornal Tribuna do Ceará


Nota do Blog:

 O Náutico Atlético Cearense foi inaugurado em 9 de junho de 1929 na Praia do Magarefe ( Praia Formosa). As atuais instalações, na Praia do Meireles, projetadas pelo arquiteto húngaro Emilio Hinko, foram inauguradas em 19 de julho de 1959. Portanto, a matéria foi feita durante andamento das obras, e ao visto a pista de patinação não saiu. Nos solidarizamos à campanha pela conservação do prédio histórico, o qual a especulação imobiliária pretende mexer bruscamente no rico projeto arquitetônico com o aval da diretoria diante de uma dívida milionária. Com parte tombada pelo Município e a negativa pelo Estado (Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural) é provável que mais um patrimônio cultural da cidade se descaracterize. 


 A primeira sede do Ideal Clube localizava-se na Av. João Pessoa, Damas, inaugurada em 3 de outubro de 1931. Um ano depois inaugurou-se a filial, na praia, tornando-se definitiva a sede na Praia de Iracema em 31 de dezembro de 1939.


 O Iate Clube localizava-se anteriormente (1946) na Barra do Ceará, na antiga sede da alemã aérea Condor, quando ali funcionou o nosso aeroporto.


Na esquina da Av.  Santos Dumont com Barão de Studart funcionou a sede provisória do Clube Líbano Brasileiro, em 1947, mas apenas onze anos depois foi inaugurada a sede, na rua Tibúrcio Cavalcante, no Meireles. Infelizmente foi demolida para a construção de um prédio de luxo com o mesmo nome.


 O Clube Iracema era o mais antigo de todos, de 1884, quando dividia o prestígio da “sociedade” com o Clube Cearense. Em 1940 foi para a Praça dos Voluntários (Palacete Iracema), sendo desapropriado pela PMF, incorporando-se ao Clube dos Diários. Durante a presidência de Raimundo Girão, adquiriu-se um terreno (e o arquiteto Emilio Hinko projetou) a sede na Rua Carlos Vasconcelos com Pereira Filgueiras, sendo vendido e dando origem à atual sede regional da receita Federal.


 Já o Clube dos Diários é de 1913, marcando, nos idos do famoso Palacete Guarany, seus grandes bailes. Em 1956 transferiu-se para a Beira Mar, cuja sede, devido às dívidas, acabou vendida, e  em 2003 mudou-se para a Praia do Futuro.


 A sede do Maguari, o Clube dos Príncipes, primeiramente era no Alagadiço (atual Av Bezerra de Menezes), depois  Av. Visconde de Cauípe (1924), e sem seguida na rua Barão do Rio Branco (Benfica), em 1946. Seu time de futebol era fortíssimo e de grande torcida. Encerrado as atividades sociais e esportivas  em 1976, o prédio continua no mesmo local. Já o time de futebol os saudosistas estão tentando ressuscitar.

 O Centro Massapeense e o Comercial Clube também tiveram os prédios demolidos.

                                                        

                                                                                        (J. Lucas Jr.)






   

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Trairi CE - Seca de 1877 - 1879. Comprovante de Entrega de Comida

Logotipo produzido pela Tipografia do
 País (Maranhão)

Registro de compromisso e recibo, devidamente assinado e selado, no valor de 200 réis e foto de D. Pedro II, do comandante do iate Camilla, da Companhia Maranhense (que reinava na costa norte), ao qual se dispôs a entregar 500 volumes de mercadorias como “ambulância” (ajuda) às vítimas da grande seca de 1877 - 1879 em Trairi. Isso após a Comissão de Socorros listar, para o presidente da Província, José Júlio de Albuquerque Barros (sobralense), os nomes de 3.392 atendidos sem que soubesse que as terríveis febres se tratavam da varíola (bexiga), a maioria pessoas de outras freguesias (do sertão) enviadas ao nosso litoral à beira de rios e peixes como forma de sobrevivência. 


 Porto de Flecheiras em vez de Mundaú, o tradicional, certamente devido à aproximação da vila, onde se encontravam os flagelados, em número muito superior à população nativa. E da praia, a mercadoria levada pela força humana sobre os morros ao destino final:


 

Eu, abaixo assinado, mestre que sou do hiate Nacional Camilla, que o presente está ancorado no porto desta cidade para seguir viagem ao porto de Frexeiras, onde pretendo descarregar e que é verdade que recebi e tenho carregado dentro da dita embarcação, debaixo de coberta enxuta e bem acondicionado da comissão de compras e transporte por mar,  o volume com a marca à margem, o que me obrigo e prometo, levando-me Deus a bom salvamento e a dita embarcação, entregar em nome  da sobredita, a Comissão de Socorros de Trahiry. Frete: 600 réis à vista do valor do recibo da entrega. E para assim cumprir e guardar, obrigo a minha pessoa, bens e a dita embarcação; em certeza do que dei três conhecimentos de igual teor, assinados por mim ou por meu escrivão; um cumprido, os mais não valham.


                                                                                   

                                                                    Ceará. 28 de agosto de 1879. Pelo Mar                                                                  

                                                                                                 José Maria Silveira



 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Itapipoca CE - Antônio Tabosa Braga

O Falecimento - Matéria do O Nordeste de 15 de abril de 1935.



Corpo de Mons. Tabosa na Casa do Clero

 Fechou os olhos à luz da vida Monsenhor Tabosa Braga. Na sua trajetória pela terra cumpriu a missão de verdadeiro apóstolo de Jesus, dando-s todo a todos, no dizer expressivo das sagradas letras. Foi o sacerdote modelar, pela inteireza da fé e pelo acendrado zelo da sua caridade. Essas virtudes básicas constituíram o fundo do seu caráter de padre, à altura das excepcionais necessidades do nosso dia. O seu exemplo de abnegação e de solidariedade integral ao sentimento da Igreja, expresso através da voz da hierarquia, era uma presença viva e eloquente da palavra luminosa do Evangelho. Ao contato daquela alma dominada pela paixão de fidelidade ao Pastor Celeste rendiam-se as mais fortes hostilidades ao bem. Mas o Monsenhor Tabosa Braga possuía a condão para persuadir as inteligências pela irradiação comunicativa da sua bondade. Nasceu para guiar consciências no rumo do infinito, e jamais, nem de leve, transigiu  com os deveres de tão bela e nobre vocação.



 No exercício do paroquiato, em nossos ásperos sertões, consumiu a seiva da mocidade, entregue, noite e dia, ao exaustivo trabalho do ministério. Chamado, mais tarde, para o cargo de alta responsabilidade, junto ao chefe do rebanho fiel, passou a colaborar, como vigário da Arquidiocese, no governo espiritual da nossa terra. A sua visão segura das realidades do meio, a sua inteligência lúcida, a sua vontade de aço, o seu espírito de sacrifício, sempre disposto a imolar o mais pequenino conforto dos interesses do próximo, Dele fizeram o protótipo perfeito do discípulo encantado pelas lições do Mestre Divino.



 Ele quis o Cristo com a sua cruz. Jamais vimo-lo fugir ao dever do sofrimento. Foi o amigo de todos os tempos, mas sobretudo o amigo das horas difíceis. Nunca o valoroso e leal defensor da causa da Verdade deixou de estar no seu posto em momento de perigo. Com que desassombro e generosidade tomava para si as posições delicadas, quando a luta era mais renhida e ofensiva adversa mais impetuosa! Era a encarnação admirável do otimismo franco e espontâneo, oriundo da sua confiança ilimitada da assistência do Alto. Combatia certo da vitória e nem de longe podia admitir que as hostes do mal viessem a prevalecer. Infundia, aos que dele se aproximavam, a coragem decidida no êxito  das realizações da Boa Causa.







Chegou ao termo da jornada, merecendo as bênçãos de toda uma população reconhecida pelos benefícios dispensados. Foi receber de Deus a palma de toda uma existência, consagrada aos labores pela glória de Igreja. O seu enterro foi a mais evidente apologia a seus feitos de heroica benemerência. Toda aquela massa humana incomputável rendia o preito da sua gratidão ao semeador de tantos frutos salutares, em bem do nosso povo. Ninguém havia ali que não devesse ao pranteado morto a graça de um favor. Aquele por quem tudo abandonou e a quem procurou seguir com a maior generosidade e o mais ardente entusiasmo. Lágrimas marejavam os olhos de toda a gente. A partida para a eternidade do grande benfeitor dos pobres e ricos a todos consternava. A saudade feriu profundamente a família conterrânea diante do féretro daquele sacerdote, que foi uma das mais enérgicas afirmações do prestígio do nosso clero.




Biografia





O seu jornal noticia o seu falecimento

Antônio Tabosa Braga nascera em Itapipoca a 19 de dezembro de 1874, sendo seus pais o capitão Domingos Francisco Braga e dona Anna Luiza Braga. Aos 13 anos matriculou-se no Seminário de Fortaleza, tendo feito curso de Teologia no Seminário da Paraíba, onde recebeu o presbiterato, em 1898, das mãos do Exmo Sr. Dom Adaucto Aurélio de Miranda Henriques. Ordenado sacerdote, quis que o seu ministério sagrado se desenvolvesse na sua terra e voltou ao Ceará, onde foi nomeado vigário de Santa Quitéria. Ali fundou um colégio de instrução primária e secundária, chegando a ter matriculados 65 alunos. De Santa Quitéria, onde se tornou célebre o seu zelo de pároco, por ocasião de surto pestífero passou a responder pela paróquia de Pacoti, em 1906, posto em que continuou com imenso proveito para as almas, as lutas do seu incansável apostolado. Chamado à Capital, foi vigário do Carmo, diretor de várias associações, jornalista, como um dos fundadores do jornal O Nordeste, as Arquidiocese de Fortaleza, no qual assinava como “Velho Nicodemos”, merecendo destaque especial o seu papel relevante em favor da Boa Imprensa, do Leprosário, da propaganda do catecismo, das comunhões de Páscoa  em comum. Ao falecer, era vigário-geral da Arquidiocese, cargo que desempenhava há anos.


 Sem esquecer a sua terra, lá esteve em 1926 para acalmar os ânimos diante do choque político entre coronéis, que envolvia a sua família, como Domingos Braga Filho e Anastácio Braga Filho. Dois anos após, o famoso político Anastácio Braga acabou assassinado por Joaquim Jerônimo de Sousa.


 O falecimento de Monsenhor Tabosa Braga se registrou pouco depois das 13 horas de sexta-feira, 12 de abril, no quarto que o mesmo ocupava, na Casa do Clero, à rua Tristão Gonçalves. Durante o período mais grave da sua enfermidade recebeu a assistência dos seus clelegas de clero e de distintos amigos, sobressaindo-se o próprio chefe da Arquidiocese, D. Manoel, que lhe fazia repetidas visitas, interessando-se pelo seu estado com todo o devotamento do seu coração de amigo e pastor. Sofreu, durante os longos meses de enfermidade, imensa dor, a se notar pelo seu rosto a banhar-se em lágrimas quando o visitante relembrava áureas quadras do seu apostolado, aludindo as campanhas de religião e de patriotismo a que consagrou a sua inteligência, o seu coração, a sua virtude. Tabosa aparecia sempre como o animador esclarecido e forte, humilde sem baixeza, destemido sem imprudência, denotando, em todas suas atitudes, a finíssima tempera do seu caráter de verdadeiro sacerdote.




 O Enterro





Secret. Quinderé. Convite para
exéquias.

S Não há palavras para descrever a extraordinária manifestação da alma do nosso povo em que redundou o saimento fúnebre, iniciado por volta das 9 horas. No consenso de todos, jamais foi visto, no Ceará, espetáculo que lhe assemelhasse. Representantes de todas as classes sociais, sem distinção, acorreram para as últimas homenagens, fato que, diante da multidão, os automóveis acompanharam lentamente os passos dos pedestres.  Durante o trajeto a urna funerária foi conduzida a braços, sendo necessária, em certo ponto, levantá-la como se fosse a ombros para permitir que se tocassem o ataúde. Todo o clero presente, à frente D. Manoel, seguido dos representantes de todos os colégios religiosos, de todas as ordens, médicos, professores, jornalistas, advogados, estudantes, militares, comerciantes,  o povo enfim, como o Dr. Menezes Pimentel e exma. família fazendo as mais ardentes preces pelo descanso eterno da grande e generosa alma de Monsenhor Tabosa.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Fortaleza E. Clube. 99 Anos do Clube da Garotada

1920. Em uma década sete títulos cearenses.

18 de outubro de 1918. Oriundo do Stella Foot-Ball Club (provavelmente de 1913) é fundado, por Alcides de Castro Santos, o Fortaleza Sporting Club. Com o sustentáculo daqueles que fundaram o futebol cearense, como o Dr. José Silveira, que foi buscar a primeira bola no Rio de Janeiro, e do fotógrafo e futuro cinegrafista Ademar Bezerra de Albuquerque, fundador da Aba Film, o clube teve participação fundamental na introdução do futebol cearense, uma vez que participou de todos os torneios amadores ocorridos na parte inferior do Passeio Público. Tanto como Stella, como Fortaleza Foot-Ball Club (1914), e oficialmente, documentado, em 1918, partindo com sete títulos estaduais na década de 1920, arrastando uma massa de torcedores. 


 
Alcides Santos
Alcides Santos, filho do notável professor e deputado Agapito dos Santos (pernambucano), estudou na Suíça, como muitos cearenses, dando o nome da sua escola ao time que fundou (Stella). Mais maduro, tornou-se diretor-gerente da empresa Studart & Cia, com respeitável prestígio na sociedade. Na diretoria do clube, o aporte financeiro do capitalista João da Frota Gentil e de vários comerciantes emergentes da capital. A primeira sede foi fundada na Av João Pessoa (antiga Bemfica) e a segunda no Pici pelo presidente Otoni Diniz, hoje com estádio e grande infraestrutura, o que lhe garante, pela localização, possuir estimável valor financeiro. 

Estes 99 anos de muito trabalho, de momentos difíceis, suplantados pela paixão de uma das mais eufóricas torcidas do País, foram brindados pelo acesso à Série B do Campeonato Brasileiro e pela chegada da Caixa Econômica Federal, sua nova patrocinadora. Ao Fortaleza Esporte Clube os nossos parabéns. "Receba os sinceros abraços da torcida tão leal, meu Tricolor de Aço".




Campo do Prado lotado em amistoso contra o Bangu em 1920.
(Vida Sportiva SP)


Flagrante de 1914. Fortaleza F. C contra o time da Marinha (Almirante Barroso) na base do Passeio Público. (O Malho)



Militar Mozart Gomes, pai de Mozarzinho e Moésio, e a equipe da São Silvestre de 1941. (Unitário)




Moésio e Charuto (Trib. do CE 1959)


Mesquita e Sanatiel (Unitário 1960)


Mozart (Trib. do CE 1967)


Croinha (Gazeta de Notícias 1966)



Joãozinho. O homem do gol do título de 1969, quando o PV recebeu 32.234 pagantes.(Tribuna do Ceará)


Louro (Gazeta de Notícias 1969)


PV: gol de Marciano, ao lado de Louro e Chinezinho. (Tribuna do Ceará 1973)



Castelão: gol de Amilton Melo. (Tribuna do Ceará 1973)

sábado, 30 de setembro de 2017

Trairi CE - 1936/37. Festejos de N. Sra. do Livramento.


Trahiry em Festa - Jornal O Nordeste, 11 de janeiro de 1937.


Igreja de Nossa Senhora do Livramento. Foto anterior a 1937. (O Nordeste, Fortaleza CE)


Texto Original:


 A festa de Nossa Senhora do Livramento, padroeira do Trahiry, revestiu-se neste anno de solennidade extraordinária.

 Os festejos tiveram um caracter profundamente religioso, graças aos esforços do zeloso vigário, Revdmo padre Francisco Pereira.

 Novenário solenne, com magna assistência de fiéis. Nas últimas quatro noites, fez-se ouvir o padre Lauro Fernandes.

 No Dia dos Santos Inoccentes, 28 de dezembro, o festejo foi todo infantil, em honra aos meninos mártires. 150 creanças, às primeiras horas da manhã, desfilaram pelas ruas rumo à Matriz, louvando a Deus em cânticos harmoniosos, corações ardentes, esperando a visita de Jesus Eucharístico.

 À noite, um drama todo de creanças encheu de alegria os corações das famílias catholicas. Nestas representações, salientou-se a intelligencia primorosa e a desenvoltura de alguns petizes.

 E digna de nota a memória genial de um preto de quarenta anos que sabe de cor mais de quinhentas quadras sertanejas e as recitar sem titubear, aprendidas todas de ouvido, pois não conhece o alphabeto.   

 A passagem do anno foi saudada com um sole “Te Deum”.

 Dia de anno novo, dia da padroeira, às nove horas, a matriz regurgitava de fiéis para assistir a missa cantada. O coro executou, com perfeição admirável, a missa “Te Deum laudamus” (A ti, ó Deus, Louvamos). A um visitante, admira ouvir o coro desta parochia, tudo executado no compasso da música.

 À tarde, a festa encerrou-se com uma majestosa procissão, brilhante pela pompa e pela ordem.

 A festa teve de novidade marcante a inauguração da matriz, reformada e embellezada.

 O visitante, ao entrar  em Trahiry surprehende-se com a vista admirável da atual matriz, testemunho eloquente do esforço e zelo do padre Francisco Pereira. O vigário e o povo de Trahiry estão de parabéns.


                                                                                                                Um visitante.


 Nota do Blog:



Francisco Pereira da Silva (futuro cônego), nascido em 1903, tomou posse em Trairi, a primeira paróquia após a sua ordenação, substituindo o holandês Henrique José Willibroudo Luiten, em 10 de fevereiro de 1933, permanecendo até 30 de julho de 1937, saindo por motivo de saúde. A Professora Maria Pia de Salles confirmou o trabalho do padre na citada reforma da paróquia: “Colocou forro no teto do prédio e nas sacristias laterais; trocou o piso da igreja e fez toda a pintura interna, a óleo; construiu os parapeitos frontispício e traseiros”. E quanto às admiráveis participações das crianças, como o coral e peças teatrais, ressalte-se que Padre Pereira criou a Cruzadinha Eucarística Infantil, daí o Coro de Cânticos, nascendo da tal a criatividade e devoção do povo trairiense pela preservação da sua cultura religiosa. Em tempo, como se lê na matéria, missa em latim. Que se respeite a tradição de Nossa Senhora do Livramento de Trairi.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Accioly x Rabello. A Derrota do Povo


Dezembro de 1911. Em frente ao Quartel o povo pede a queda da oligarquia. (O Malho)


Diante da luta contra a.monarquia, destacou-se, no Ceará, o chefe do Partido Liberal e fundador do conceituado jornal O Cearense, senador Thomaz Pompeu de Souza Brasil. Doente, indicou como seus sucessores seu filho homônimo e seu genro, Antônio Pinto Nogueira Accioly, os quais lideraram o partido em choque com o senador Paula Pessoa, fazendeiro e representante do polo sobralense. A proclamação da República, em 1888, contudo, privilegiou os republicanos históricos, fortalecendo os liberais e isolando os latifundiários, freando as oligarquias rurais. Em consequência, como veremos adiante, houve um racha no grupo dominante, dividindo-se entre simpatizantes de Deodoro da Fonseca (“maloqueiros”) e de Floriano Peixoto (“cafinfins”).


 Início da República



Nogueira Accioly
O primeiro presidente da República, Marechal Deodoro da Fonseca (1889 - 1891) indicou e a Assembleia aprovou, sob a liderança de Paula Pessoa, o “maloqueiro” Clarindo de Queiroz para o governo do Ceará.  O mesmo, porém, acabou deposto em 1892, diante do golpe de Floriano Peixoto, dissolvendo os governos estaduais e os legislativos. A revolta armada, registrada em fotografias mostrando um grupo rebelde percorrendo o Centro de Fortaleza, acabou por destruir grosseiramente parte do Palácio da Luz e por derrubar a estátua de General Tibúrcio, que teria caído em pé. Nas terras cearenses, a ofensiva foi orquestrada por Nogueira Accioly, representante dos ricos comerciantes, importadores e exportadores. Nasceria, a partir daquele ano, a Oligarquia Accioly.


Floriano Peixoto


 A gestão de Floriano Peixoto (1892 - 1896) foi centralizada nos polos dominantes, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, indicando dirigentes nos estados e se fortalecendo, em termos de bases de apoio, através da distribuição de cargos e isolamento de opositores. Essa política, já conhecida, foi bem recebida pelos simpatizantes do velho coronelismo. Mas a partir de então, as lideranças locais tinham a orientação do chefe nacional do primeiro golpismo republicano, senador Pinheiro Machado, e daí a subserviência ao governo central. Tal adesismo contribuiu para o monopólio econômico, que enricou os capitalistas, favorecidos com empréstimos bancários, associados ao governo estadual, já que possuíam o privilégio dos negócios no exterior, como facilidades na importação de uma riqueza do momento: materiais para a estrada de ferro.


 Rodolfo Teófilo encara o Comendador


 Nogueira Accioly tinha os coronéis nas mãos e a eles ordenava medidas opressoras aos cidadãos carentes, vitimas das secas, proibindo-as de imigrarem e negando ajuda aos flagelados. Ou seja, os cearenses não tinham apoio estadual para aliviar a fome nem lhes eram permitidas partidas para outros Estados. As pestes que abalaram o solo cearense durante a seca de 1877 - 1879 estavam de volta, e, diante do descaso de Accioly, o Dr. Rodolfo Teófilo comprou uma briga para fabricar vacinas contra a varíola. E venceu. Tal embate fez a “oligarquia” perder deputados, de modo que a administração de Nogueira Accioly (1896 - 1900) acabou por ver o então “indesejável” Pedro Borges como seu sucessor. Mas na verdade uma vitória do chefe político ao assistir a aprovação das suas contas, pelo governo posterior, diante da maioria parlamentar oligárquica, em troca de uma senatoria.


Salvações no Papel



 A Política das Salvações imposta pelo governo do marechal Hermes da Fonseca (1910 - 1914) trouxe um alento aos opositores do coronelismo de então. Tratava-se de uma reação de parte de setores do Exército aos desmandos no País, procurando isolar as oligarquias com a ascensão de um militar rebelde. O arquiteto do “toma lá dá cá”, senador Pinheiro Machado, ainda governista como um certo partido hoje em dia,  já não era o interlocutor dos coronéis, mas, no Ceará, o Comendador Accioly continuava impondo a sua força, direcionando o seu PRC (Partido Republicano Conservador), presidido pelo deputado Thomaz Cavalcanti, junto às autoridades nacionais. O Ceará se posicionava contra as medidas do governo federal.


Primeiras Mobilizações




Concentração pró-Rabello na Praça dos Mártires em 1912. (O Malho)


A esperança a nível federal desencadeou uma reação de setores da sociedade fortalezense. Pequenos comerciantes, profissionais liberais, estudantes, funcionários públicos iniciaram uma série de manifestações contra a continuidade da oligarquia. Um desses eventos ocorreu no dia 21 de janeiro de 1912, a Passeata das Crianças e Mulheres, organizada pela Liga Feminina Pró Ceará, aglomerando, entre a rua General Sampaio e a Praça do Ferreira, cerca de três mil pessoas. Enquanto o povo delirava, soltando rosas, tudo se desenrolava pacificamente quando, ao discurso de um menino de dez anos na praça, a cavalaria irrompeu contra os manifestantes, atirando e resultando em correria, feridos, com uma criança e um comerciante mortos.


Odele de P. Pessoa

Os pais e demais cidadãos indignados se armaram com rifles a fim de enfrentar a polícia, que se abrigava no Palácio da Luz. Mas a cidade acabou ficando às escuras, afugentando uma rebelião maior, o que não impediu, no dia posterior, tiroteios defronte a Delegacia Fiscal e Cadeia Pública. Aproveitadores do momento de tensão saquearam e incendiaram a residência e a fábrica de tecidos, Progresso, de Nogueira Accioly; as residências de seus parentes José, Benjamin e Thomaz Accioly; as residências do ex-prefeito de Fortaleza, Guilherme Rocha, e do futuro, Cassimiro Montenegro; a residência de Gracindo Cardoso e a sede do antigo DNOCS, o IOCS (Palacete Carvalho Motta). O comendador assinou a renúncia e partiu, no vapor Pará,  para o Rio de Janeiro, de onde continuou coordenando seus correligionários.

Franco Rabello no Governo


  
Franco Rabello
O Tenente-Coronel Marcos Franco Rabello, com amplo apoio popular na capital, inclusive de setores da imprensa, venceu o pleito folgadamente, em 14 de julho de 1912. Uma vitória sem brilho de fato, afinal precisava de apoio do legislativo quando até nas bases liberais não podia confiar, já que muitos se abrigaram no Partido Marreta (“marretas”) de raízes aciolistas. Inclusive tentou o apoio de Nogueira Accioly com um cargo de terceiro escalão em vista a desacordos pontuais com Thomaz Cavalcanti. No dia 9 de dezembro daquele ano, eis que um levante de deputados tentou votar a deposição de Rabello. O povo tomou a Assembleia Legislativa, no Palacete Senador Alencar, e impediu que o mesmo se consumasse. Uma nova “rebelião popular” que serviu de pretexto para a reviravolta da parte do governo federal. Estava em evidência o período mais agitado e crítico da história cearense.


A Armação




Palacete Accioly incendiado. Rua 24 de Maio com Guilherme Rocha. ( O Malho)


Pinheiro Machado, na esperança de suceder Hermes da Fonseca, atraiu os “marretas”, todo o grupo de Accioly e o coronelismo de Floro Bartolomeu, médico baiano e parlamentar de Juazeiro no Rio de janeiro. Na capital federal, orquestrou-se uma “assembleia legislativa” dissidente, que, por seis deputados, elegeu Floro Bartolomeu, em sessão na terra de Padre Cícero, no dia 12 de dezembro de 1913, o novo presidente do Ceará. 



Batalhão pró- Rabello (O Malho)


E a partir daí dirigir-se para Fortaleza com o objetivo de tomar à força o Palácio da Luz, sede do governo. Acusado ainda de matar jagunços e bandidos que operavam para os coronéis do Centro-Sul e do Cariri, Franco Rabello teria pela frente um conjunto desfavorável, uma tropa com cerca de 400 pessoas, incluindo criminosos em busca de vingança, que tomava e amedrontava cidades a caminho da sua cabeça: Crato, Barbalha, Quixeramobim, Quixadá, Baturité, depondo os dirigentes pró-Rabello. No dia 14 de março de 1914, o presidente Hermes da Fonseca decretou a queda de Franco Rabello, assumindo o general Setembrino de Carvalho. No outro dia o povo acompanhou o político deposto até o cais na Praia do Peixe (Iracema). Rabello partia para o Rio de Janeiro, porém sem os gritos de “babaquara” como ouviu Accioly.


O Padim lava as mãos



Floro e Pe. Cícero
Pe. Cícero, em entrevista ao jornal O Povo, confirmou que entrou na política não porque gostasse, mas por pedido do seu amigo Nogueira Accioly, então presidente, para manter o equilíbrio que “o outro cidadão não sabia fazer”. Ainda no período de Franco Rabello “não hesitei em atender o pedido da população desta terra e autorizei que o meu nome fosse apresentado para voltar ao cargo de prefeito do município naquele mesmo governo que me era sobremaneira hostil” (Foi prefeito de 1911 a 1926). A despeito de ter sido 3° vice-presidente na gestão rabellista, Pe. Cícero, alegando “bárbaros assassinatos e espancamentos”, contribuiu para a reação ao governo estadual sem medir as consequências, embora, nesta conversa, tenha negado: “Meu amigo Dr. Floro Bartolomeu me informou que os chefes do partido haviam reunido a Assembleia Legislativa aqui (Juazeiro do Norte) em virtude da pressão contrária exercida pelo chefe do executivo. Ponderei em carta reservada pedindo a renúncia de Franco Rabello”. “Posso afirmar, sem nenhum peso na consciência, que não fiz revolução, nela não tomei parte, nem para ela concorri, nem tive nem tenho parcela de responsabilidade direta ou indiretamente nos atos ocorridos, por despeitos mal entendidos de ordem política. Estou certo de quando se fizer, sem paixão, a verdade à luz sobre esses fatos meu nome estará limpo como sempre foi”.

O Coronel assume o golpe




Batalhão de Floro Bartolomeu (Foto F. Fernandes Nascimento)
 Por conseguinte, Floro Bartolomeu também negou apoios de Padre Cícero e externo para a rebelião, ou seja, assumia a coordenação para salvar seus companheiros coronéis, que não eram  apreciados por Franco Rabello. Mas incorria à desculpa de que os mesmo não contribuíram financeiramente com os custos. O religioso, chantageado, temendo o retorno da questão religiosa (o tal milagre da hóstia sagrada), convenceu-se de que, para o progresso de Juazeiro do Norte (o que realmente aconteceu), melhor seria, como caudilho, ficar com os ideais de Floro Bartolomeu. Com ele encontraria a sua tranquilidade.


Juazeiro cresce com o político Padre Cícero


 As consequências do assalto das forças caririenses à capital foram danosas, tornando a política local mais centralizadora. O Dr. Joaquim Alves, natural de Jardim CE, fundador da Sociedade Cearense de Geografia e História, sócio do Instituto do Ceará, assim analisou Juazeiro após a queda de Franco Rabello: “A luta armada em que se empenharam os partidos em 1914 terminou com a vitoria dos homens de Juazeiro, que passaram, desde então, a influir, poderosamente, na máquina política do Estado, sendo Pe. Cícero eleito vice-presidente ao período imediato à revolução. O Dr. Floro Bartolomeu da Costa passou a dirigir a política regional em todos os casos locais”. Contudo, o historiador, ainda que em contradição à aliança com os coronéis e seus jagunços, fez a defesa dos envolvidos na sedição: “Não podia o Padre Cícero responder pessoalmente por atitudes de inimigos rancorosos como são os grupos que se destroem nos sertões. Não podia o Dr. Floro responder pela presença de chefes de grupos políticos armados em Juazeiro. Eram fatos que caracterizavam uma época”.

 Ceará dos Coronéis


 Estavam no poder novamente as forças do cabresto, os coronéis em cuja casa grande pelo menos um cavalo era de um jagunço. E aos que lhes pediam comida que procurassem o padre que idolatravam. Um grande trabalho, porem, teriam pela frente: uma grade seca provocaria uma nova desgraça no Ceará. E mais uma rota humana rumo a Fortaleza. Não de corja, mas de vitimas das ganâncias e maldades dos políticos.




Ao lado do seu genro e futuro senador Francisco Sá, temos Accioly deixando o Ceará após a renúncia.




Fontes: Jornal O Povo (CE)  "A Sedição de Juazeiro - Guerra Civil no Ceará" (Marcelo Ayres Camurça Lima), “Juazeiro, Cidade Mística” (Joaquim Alves), “Os Partidos Políticos do Ceará” (Abelardo F. Montenegro) e Acervo Lucas.




O governador Franco Rabello chega à Assembléia Legislativa (O Malho)